Apresentamos poemas que mostram conceitos de luz, onda e partícula desde uma perspectiva clássica e quântica explorados a partir de "conexões" entre a ciência e a poesia.
Transcreveremos o poema "Física" de José Saramago, prêmio Nobel da Literatura, relativamente pouco conhecido como poeta (Saramago, 1999)
Física
Colho esta luz solar à minha volta,
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte
tornam as cores ao prisma que define
À luz solar de ti e ao silêncio
A leitura deste poema leva aos conceitos de dispersão da luz e à necessidade de conhecer a sua natureza. Esta abordagem permite entrar pela história da ciência com a polêmica Newton/Huyghens. E, a propósito de Newton, apresentar-se o poema "Newton" de Eugénio Lisboa (Lisboa, 2001).
Newton
Da qualidade oculta de tudo,
não cuido nem sei. Não é de ofício
sério sabê-lo: o tudo é mudo
e forçar-lhe a fala é sério vício…
A exploração da já referida polêmica permite analisar fenômenos de refração, difração e interferência, a sua contextualização em termos sociais históricos e tecnológicos, com a conseqüente exploração experimental dos fenômenos em causa.
E, prosseguindo neste "caminhar" da ciência, surgem a radiação do corpo negro, o efeito fotoelétrico e a polêmica sobre a natureza ondulatória/ corpuscular das partículas. E, em simultâneo, a consequente evolução da teoria atômica. Aqui surge a oportunidade de apresentar o poema "Bohr", de Eugénio Lisboa (Lisboa,
2001), e o "Poema de ser ou não ser", de António Gedeão (Gedeão, 1990).
Bohr
Os corpúsculos e as ondas
são a mesma realidade
Assim sendo, tu já sondas
o começo de uma idade.
(Perscrutar certos segredos
que a natureza escondera
é fundamento dos medos
do frio que nos espera)..
Poema de ser ou não ser
São ondas ou corpúsculos?
Sim ou não?
São uma ou outra coisa, ou serão ambas?
São "ou" ou serão "e"?
Ou tudo se passa como se?
Percorrem velozmente órbitas certas
as quais existem só quando as percorrem.
Velozmente. Será?
Ou talvez não se movam, o que depende
do estado em que se encontre quem observa.
Assim prosseguem rotineira marcha
na paz podre do tempo.
Oh! O tempo!
Até que, de repente,
por exigências igualmente certas,
num sobressalto histérico,
saltam da certa órbita
e vão fazer o mesmo noutra certa
tão certa como a outra.
E assim prosseguem
na paz podre do tempo.
Eis senão quando,
como pedra num charco ou estrela que deflagra,
irrompem no vazio,
e o vazio perturbado afunda-se e alteia-se
e em esferas sucessivas, pressurosas,
vão alagando o espaço próximo
depois o mais distante,
e seguem sempre, sempre, avante, sempre avante,
em quantas direções se lhe apresentam.
Sim, ou não?
Estou à janela
e vejo muito ao longe a linha do horizonte.
Ser ou não ser?
Eis a questão.
Estes poemas são apenas exemplos de uma estratégia possível em que a poesia serve de veículo para construir conhecimento e permitem, a exploração de inúmeros conceitos de ondas, corpúsculos e mecânica quântica.
Apresentamos aqui alguns parágrafos do artigo que pode ser obtido no seguinte link